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COLO É POLÍTICA: feminicídio, mulheres negras e a colonialidade da morte no Brasil contemporâneo

Por Agnes Oyasọmi


A existência das mulheres negras no Brasil é atravessada por uma historicidade marcada pela escravidão, pela racialização dos corpos e pela produção contínua de desigualdades estruturais. Redes de cuidado sustentadas por mulheres negras — no interior das famílias, das comunidades, dos terreiros e dos territórios periféricos — constituíram-se historicamente como tecnologias de sobrevivência frente a um Estado que, desde o período colonial, opera pela negação sistemática da humanidade plena da população negra. A noção de colo ancestral, aqui mobilizada, emerge como categoria político-epistêmica para designar esse conjunto de práticas de cuidado, transmissão de saberes, acolhimento espiritual e sustentação da vida que garantiram a continuidade das comunidades negras frente à violência colonial e pós-colonial.

Os dados mais recentes sobre feminicídio no Brasil evidenciam a profundidade dessa crise. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o maior número desde a tipificação do crime no país, o que corresponde a uma média superior a quatro mulheres assassinadas por dia. No primeiro semestre de 2025, o Mapa Nacional da Violência de Gênero, organizado a partir de registros oficiais de boletins de ocorrência, já contabilizava 718 casos, indicando a manutenção de níveis alarmantes de violência letal de gênero. A dimensão racial desse fenômeno é incontornável: aproximadamente 63,6% das vítimas de feminicídio no Brasil são mulheres negras, revelando que a morte no país é racializada e distribuída de forma profundamente desigual.

Esses dados não podem ser compreendidos como simples estatísticas criminais. Eles expressam um padrão estrutural de violência que encontra fundamento naquilo que Aníbal Quijano conceituou como colonialidade do poder, isto é, um sistema de hierarquização racial, sexual e econômica que organiza quem pode viver e quem pode morrer. No Brasil, os corpos das mulheres negras foram historicamente produzidos como corpos disponíveis, exploráveis e descartáveis, situados na intersecção entre racismo estrutural, patriarcado e desigualdade social. O feminicídio, nesse contexto, opera como uma tecnologia colonial de controle dos corpos femininos negros, não apenas eliminando vidas individuais, mas interrompendo redes de cuidado, transmissão de memória, práticas espirituais e formas comunitárias de existência.

Essa compreensão exige deslocar também o modo como se pensa justiça. No debate construído pelo feminismo negro brasileiro, a noção de justeza, tal como elaborada pela Criola, desloca a justiça do campo restrito da legalidade penal para uma ética da vida que considera as desigualdades históricas como constitutivas da violência. A justeza não se limita à responsabilização individual após a morte, mas exige condições materiais, simbólicas e afetivas para que mulheres negras possam viver com dignidade. Trata-se de uma justiça que articula reparação histórica, redistribuição de recursos, reconhecimento do racismo estrutural e fortalecimento das capacidades coletivas de cuidado e proteção. A pergunta central da justeza não é apenas “quem matou?”, mas “quais estruturas tornaram essa morte possível e o que precisa ser transformado para que ela não se repita?”. Nesse sentido, a justiça se mede menos pela punição e mais pela preservação da vida e pela continuidade comunitária.

É nesse horizonte que o conceito de colo ancestral se articula à noção de justeza. O cuidado, frequentemente relegado à esfera privada e feminilizada, emerge aqui como prática política fundamental e tecnologia civilizatória de resistência à necropolítica. O colo ancestral organiza saúde mental comunitária, transmissão intergeracional de saberes, acolhimento espiritual e reconstrução identitária como formas concretas de enfrentamento à violência estrutural. Ele opera como contrapoder às lógicas de morte, afirmando a vida onde o Estado falha ou violenta.

Pensar a justeza de Nanã diante do atual quadro brasileiro de feminicídios aprofunda essa reflexão. Nanã, enquanto princípio civilizatório ligado à ancestralidade, ao tempo longo e à matéria primordial da vida, ensina que não há justiça possível onde a memória é apagada e onde a morte se naturaliza. A justeza de Nanã não se orienta pela urgência punitiva, mas pela reconstrução profunda do que foi corroído: exige que o país encare suas raízes coloniais, reconheça o sangue derramado das mulheres negras e assuma a responsabilidade coletiva de cuidar daquilo que sustenta a vida. Em um Brasil que normaliza o assassinato de mulheres negras, a justeza de Nanã se manifesta como ética da reparação, da desaceleração da violência e da recomposição dos vínculos rompidos entre passado, presente e futuro.

Proteger mulheres negras, portanto, não é apenas uma demanda por direitos individuais, mas uma estratégia de preservação de sistemas civilizatórios que sustentam a vida nos territórios negros. Enquanto existir colo, existirá continuidade; enquanto houver cuidado, haverá vida. A luta contra o feminicídio, nesse sentido, é inseparável da luta por uma justiça enraizada na memória, na ancestralidade e na afirmação radical da vida.

Referências citadas no texto:

Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 — Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Mapa Nacional da Violência de Gênero — Senado Federal.

Justeza: Caminhos Para o Enfrentamento ao Racismo Religioso - Organização Criola
https://criola.org.br/formacoes/justeza-caminhos-para-o-enfrentamento-ao-racismo-religioso/

Quijano, A. (2005). Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.

Mbembe, A. (2018). Necropolítica.

Federici, S. (2017). Calibã e a bruxa.

Collins, P. H. (2016). Black Feminist Thought.

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