“Afẹ́fẹ́ Ọya ló ń yọ òtítọ́ sókè.”
O vento de Oyá revela o que estava escondido.
No início de novembro de 2025, um ciclone atravessou o Brasil
deixando rastros de destruição, sobretudo nas regiões Sul e
Sudeste. Ventos fortes, enxurradas e deslizamentos ceifaram vidas e
deixaram milhares de famílias sem casa. Mas é importante dizer:
essas mortes não são obra de Oyá.
São consequência direta da ação humana e do descaso político com os territórios e com as pessoas. A crise climática que vivemos pode e deve ser evitada, mas isso exige vontade coletiva, justiça ambiental e escuta dos saberes que há muito alertam para o desequilíbrio entre humanos e natureza.
Oyá, senhora dos ventos e das transformações, não é destruição: é movimento. Sua força anuncia mudanças e revela o que o poder tenta ocultar. Os ventos que hoje sopram sobre o país são também um chamado não da natureza vingativa, mas de um planeta que pede reparação e de uma espiritualidade que insiste em nos lembrar que a terra tem dono: o coletivo da vida. Diz o Ìtàn que Oyá vivia com Xangô, o senhor do fogo e do trovão, e desejava compreender a natureza dos elementos. Consultou Orunmilá, o adivinho, que lhe indicou oferendas e sacrifícios. Após cumpri-los com dedicação, Obatalá, criador dos seres humanos, concedeu-lhe o domínio dos vento o poder de mover o ar e abrir os caminhos entre o mundo dos vivos e o dos ancestrais.
Desde então, ninguém controla o vento sem passar por Oyá. Ela sopra o efunfun, o vento branco, frio, que purifica e o eru, o vento quente e veloz, que destrói o que precisa ser transformado. Quando o redemoinho surge, dizem: “Oyá está dançando”. Mas sua dança não é punição é revelação. Oyá mostra o que foi negligenciado, expõe as feridas do descuido humano e anuncia o tempo da mudança.
Quando ventos extremos nos visitam, é como se Oyá soprasse para que vejamos o que se recusou a olhar: o colapso do equilíbrio entre a natureza e as cidades.

O ar que respiramos
As pesquisas científicas reforçam o que as comunidades tradicionais há muito sentem no corpo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Fiocruz, mais de 99% da população mundial respira ar poluído acima do limite seguro, e no Brasil, a poluição atmosférica é responsável por cerca de 50 mil mortes anuais, muitas delas por doenças respiratórias e cardiovasculares. Estudos da Faculdade de Medicina da USP mostram que o material particulado fino (PM2.5), gerado pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, penetra profundamente nos pulmões e no sistema circulatório, agravando quadros de asma, bronquite e doenças pulmonares crônicas, especialmente em crianças, idosos e pessoas que vivem nas periferias urbanas.
Esses números traduzem o que Oyá já dizia em sua linguagem ancestral: quando o ar está doente, o corpo do mundo também adoece.
A poluição é o sinal mais visível da ruptura entre o humano e o natural — e é nas margens, nos territórios mais vulneráveis, que o peso dessa ruptura se torna insuportável.
Financeirização da natureza e o
falso verde
Começu a COP30, que reúne líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais, representantes da sociedade civil, de governos, do setor privado, e de organizações internacionais para discutir ações diante da crise climática e o governo brasileiro lançou em Belém do Pará o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) que é a principal proposta do país para o evento. O fundo pretende mobilizar 125 bilhões de dólares para conservar florestas tropicais. À primeira vista, soa grandioso.
Mas, como mostrou a jornalista Bruna Bronoski, em investigação publicada no O Joio e O Trigo1, o mecanismo aposta novamente na ideia de que é possível salvar a natureza por meio do mercado financeiro — a mesma lógica que a transformou em mercadoria.
Essa retórica, vestida de verde, mascara a contradição: quem mais destrói é quem hoje se apresenta como salvador. Grandes corporações do agronegócio, mineradoras e petroleiras e historicamente ligadas ao desmatamento, à grilagem e à exploração de trabalhadores e ocupam espaços privilegiados nas negociações oficiais. Chamam isso de “transição”, quando na verdade é apenas greenwashing com verniz diplomático.
Enquanto isso, jornalistas como Tatiana Ferreira e Marcela Vecchione Gonçalves, também citadas na matéria, lembram que as casas de resistência e as yellow zones da COP30, criadas por movimentos sociais e comunidades tradicionais — são a verdadeira antítese desses espaços corporativos.
Elas descentralizam o debate e trazem à tona vozes que lutam por justiça climática e soberania dos povos.
São Paulo em estado crítico
De acordo com o Dossiê COP30 – O Clima no Estado de São Paulo2 , o território paulista enfrenta uma condição crítica de vulnerabilidade climática. O aumento das ondas de calor, a contaminação das águas, o desmatamento das margens de rios e a urbanização desordenada aprofundam os impactos sobre comunidades periféricas e tradicionais.
Nessas regiões, o calor extremo e as enchentes não são apenas fenômenos naturais: são o resultado de uma política urbana que abandona quem vive à beira da sobrevivência.
Por isso, discutir o clima em São Paulo — e em todo o país — é também falar de racismo ambiental, de desigualdade territorial e de ausência de políticas públicas que garantam proteção real às populações mais vulneráveis.
O enfrentamento da crise climática exige mais do que acordos internacionais: exige justiça social e escuta dos povos que conhecem o equilíbrio da terra.

Entre o colapso e a esperança
A COP30 acontece em Belém, território de encantarias e saberes ancestrais, onde também florescem as casas de resistência — espaços construídos por povos indígenas, quilombolas, camponeses e comunidades tradicionais que propõem outra forma de pensar o clima: a partir do chão, da espiritualidade e da reciprocidade.
Enquanto as negociações oficiais tentam precificar a natureza, esses povos praticam a vida em comum e nos mostram que outro mundo é possível, um mundo onde o vento de Oyá é sinal de mudança, não de tragédia.
A crise climática não é destino, é escolha. E se o que está em jogo é o futuro da vida, que saibamos ouvir quem sempre cuidou dela. Que os ventos soprem para varrer o descaso e abrir espaço para o que precisa florescer.
Agnes Karoline de Oya
Matrigestora das Yabás - Saber e Cura
12 de Novembro de 2025
Referências Bibliograficas
LIVROS E OBRAS TEÓRICAS
BISPO DOS SANTOS, Antônio. Colonização, quilombos e movimentos sociais. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2018.
ELBEIN DOS SANTOS, Juana. Os nagôs e a morte: pade, àsèsè e o culto egungun. Petrópolis: Vozes, 1976.
KING, Bàbá. Ifá: a sabedoria eterna de Òrúnmìlà. Lagos: Òrìsà Global Publications, 2014.
LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2004.
NOGUEIRA, Renato. Mulheres e deusas: o feminino na mitologia africana. Rio de Janeiro: Pallas, 2012.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.
PRIMAVESI, Ana. Manejo ecológico do solo: a agricultura em regiões tropicais. São Paulo: Nobel, 2002.
SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Petrópolis: Vozes, 1988.
VERGER, Pierre Fatumbi. Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo. Salvador: Corrupio, 1981.
ARTIGOS, RELATÓRIOS E DOCUMENTOS INSTITUCIONAIS
BRONOSKI, Bruna. COP, financiamentos e agro – nos ajude a seguir a trilha dessa investigação. O Joio e o Trigo, Belém do Pará, 5 nov. 2025. Disponível em: https://ojoioeotrigo.com.br/2025/11/cop-financiamentos-e-agro-nos-ajude-a-seguir-a-trilha-dessa-investigacao/. Acesso em: 11 nov. 2025.
FERREIRA, Tatiana; VECCHIONE GONÇALVES, Marcela. Entrevistas sobre a COP30. O Joio e o Trigo, Belém do Pará, nov. 2025.
FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Impactos da poluição atmosférica na saúde pública brasileira. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2022. Disponível em: https://portal.fiocruz.br. Acesso em: 11 nov. 2025.
GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Dossiê COP30 – O Clima no Estado de São Paulo. São Paulo: Secretaria de Meio Ambiente, 2025.
INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE (IPCC). Climate Change 2023: Synthesis Report. Geneva: United Nations, 2023. Disponível em: https://www.ipcc.ch. Acesso em: 11 nov. 2025.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). Air pollution and health. Genebra: World Health Organization, 2023. Disponível em: https://www.who.int/airpollution. Acesso em: 11 nov. 2025.
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO (USP). Relatório sobre material particulado (PM2.5) e doenças respiratórias no Brasil. Faculdade de Medicina da USP, São Paulo, 2023. Disponível em: https://www.fm.usp.br. Acesso em: 11 nov. 2025.
1(https://ojoioeotrigo.com.br/2025/11/cop-financiamentos-e-agro-nos-ajude-a-seguir-a-trilha-dessa-investigacao/)
2(https://sintaemasp.org.br/wp-content/uploads/2025/11/COP30-FINAL-DIGITAL-1.pdf)
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